sábado, 14 de agosto de 2010


Sobre crenças e o amor nelas contido


Nesses dias em que andei refletindo sobre a morte, sem nenhum motivo em especial, acabei por imaginar quais seriam os meus ultimos pensamentos enquanto habitante de uma consciência.

Numa bem humorada referencia à minha mãe (manter o bom humor nos ultimos minutos de vida não deve ser uma coisa simples, mas esta nos meus planos tentar) eu pensaria: "...lavar os cabelos todos os dias não faz apodrecer as raizes dos fios e nem leva à uma calvície precoce...eu estive certa a vida toda mãe..."

Não foi o tema " morte" e muito menos a saúde dos cabelos que me trouxe hoje à este espaço e sim a vontade de observar sob um olhar diploico a palavra crença.

A definição de um estado mental que pode ser verdadeiro ou falso , interpretado por nossa consciencia como sendo verdadeiro, sem termos sobre ele realizado qualquer questionamento ou verificação de veracidade, leva-me a refletir não sobre a crença , em si, mas sobre o motivo da aceitação sem questionamentos. Crer é ter afeição , quase uma devoção por algo não comprovado.

Durante os banhos matinais, lavando os cabelos diariamente, eu tinha tempo de sobra pra avaliar riscos e benefícios de contradizer uma crença que, na melhor das intenções, minha mãe tentava incessantemente impor e eu com respeito e a diplomacia que já me era peculiar contradizia.

Por uns bons anos observava atentemente ,quase contando os fios durante a secagem, mas o tempo se encarregou de ir dia a dia negando a veracidade daquela, com todo o cuidado de manter outras crenças que apenas traduziam um amor materno sendo transmitido atraves de lendas. Sendo minha mãe uma pessoa culta e bastante diferenciada, com certeza as herdou de minha vó ,sem questiona-las para não descaracterizar a definição.

Crescendo e lavando os cabelos dia a dia fui escolhendo quais verdades a mim não pertenciam e quais, mesmo não pertencendo, guardaria com carinho, em preto e branco como num livro de recordações familiares.

Ainda hoje crenças fazem parte de minha vida....abstratas ou concretas , em forma de idéias ou frases e isso ajuda na percepção de crenças na "terceira pessoa" que muito me ajuda num convivio social.

Quanto ao momento de minha morte, em nada me importo com as vestes ou flores e velas, mas quero estar com os cabelos soltos e despenteados, contradizendo minha mãe em sua crença quanto à calvície e ao mesmo tempo demonstrando que segui literalmente seus ensinamentos quanto a viver a vida numa intensidade suficiente para manter os cabelos despenteados.


Lú Vitale

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